sexta-feira, 31 de maio de 2013

Preconceito...

 Por que é que quase sempre quem tem altas habilidades têm a inibição de se declarar como tal? Por que existem campanhas e campanhas para pessoas com deficiências, para que elas não sofram preconceito, para que o mundo as aceite como elas são, e elas próprias se aceitem como são, e para os superdotados sobra somente aquele cantinho na sua própria mente que sabe o que eles são? Por que só é preconceito se a inferiorização acontece com os deficientes mentais e físicos, e quando uma psiquiatra, um médico, um psicólogo, um professor, uma pessoa aleatória qualquer, ou mesmo um comentário anônimo na internet acha que é normal se referir às altas habilidades como "essa bobeira", ou que "isso não existe"; ou que se alguém resolver falar que é superdotado, não porque 'acha legal', mas porque vive com isso diariamente e sabe que não é só um rótulo, mas algo que, mesmo que você tenha descoberto recentemente, ou conviva com isto desde que se entende, lhe define em todos os aspectos da sua vida, este alguém é 'egocêntrico e está se achando'?

 Por que não existem campanhas para quem possui altas habilidades? Onde está o incentivo para quem corre o risco de não concluir os estudos não porque não consegue acessar fisicamente o espaço escolar ou universitário, não porque não consegue enxergar, ouvir, falar, etc. Mas porque 'funciona' de maneira diferente, e precisa de incentivo extra-curricular, ou de pular uma série ou uma matéria para que não perca o interesse, ou que possa realizar matérias de forma simultânea para avançar e chegar a atingir todo o seu potencial.

 Por que é que sentimos que devemos ter vergonha de falar o que somos, para nossos pais, amigos, namorados, professores? De onde vem essa noção de que ter altas habilidades é algo fácil de lidar e portanto quem possui não precisa de ajuda? Ou que é 'bobagem' achar que isto nos torna diferentes? Não sei se vocês se sentem assim, eu sei que eu sim, muitas vezes. Não sei se a palavra é vergonha, mas enfim, eu não me sinto confortável em dividir a informação de que tenho altas habilidades, e não sei porquê, não sei de onde vem esse sentimento de que é errado admitir algo que eu sou, algo que não é ruim. Às vezes eu acho que ao falar isto eu farei a pessoa com a qual dialogo se sentir inadequada, e ao falar sou eu que acabo me achando inadequada. Talvez meu medo é que, eu sei que a super dotação não é de maneira ALGUMA um atestado de superioridade, apenas de diferença, porém, eu não sei se a outra pessoa sabe disso... E as experiências que tive ao falar que tenho altas habilidades para outros não foram boas no geral. Na minha família próxima a maioria sabe e não é nada demais. No entanto, costumava ser muito embaraçoso quando eu era mais nova aquela história de "Nossa! Ela foi alfabetizada em tal idade! E aprendeu a falar tal idioma em tal idade! E é muito inteligente" e whatever... Grandes coisas se isso não me levou a atingir meu potencial, e não levou mesmo! Se antes eu sempre era a mais nova nas salas de aula, hoje em dia eu sou a mais velha... Sério, eu sou A veterana do meu curso, não conheço mais ninguém que tenha entrado antes de mim. E antes ou agora eu não sou menos ou mais 'superdotada' (ok, talvez menos, sabe como é, na faculdade os neurônios tendem a se dissipar....).

 Com alguns amigos que eu sei que possuem altas habilidades (mesmo que eles não saibam ou não gostem de admitir) é mais fácil conversar sobre o assunto. Mas mesmo com meus pais as vezes é complicado.

A completar...

12 comentários:

  1. Olá Flávia! Sinceramente não sei como não encontrei sei blog antes ... ou melhor, por muito tempo sempre que precisei buscar algo do gênero, tive que pesquisar em referências fora do Brasil, enfim ... Eu sei exatamente o que passa e sente ... é à típica situação de você falar, pensar e interpretar:"Eu sou superdotado(isso para mim é super comum)" e na outra ponta a pessoa que ouve: "Eu sou superdotado!" mas acontece algo nos ouvidos dela que a frase que chega ao cérebro dela fica: "Eu sou mais inteligente que você" e ela interpreta: "Quem essa pessoa arrogante pensa que ela é?" ... ou então a que antes me deixava embaraçado, mas hoje fico rindo mentalmente ... a pessoa ouve a frase e logo solta a resposta ... mulheres(Ainda não temos intimidade para você me falar isso) ... homens(é seu pé é grande, mas pra que você esta me falando isso?) ... enfim ... vou passar a seguir seu Blog, quem sabe em alguma dessas madrugadas e dias sem dormir, não acabamos batendo um papo? ;-).

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    1. Me identifico totalmente -_-
      Porém, não tenho certeza, e essa incerteza corrói os ossos.

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  2. Flávia, com apoio de minha psicóloga descobrir, a pouco tempo, que tenho altas habilidades, mas isso não facilitou em nada a minha vida... Passei minha vida toda com sentimento de culpa e, por vezes, me achando o pior dos alunos por não me interessar pelas aulas! aprendia na primeira explicação dos professores e me desinteressava (a falta de acompanhamento para construir uma ponte entre minha forma de aprender e manter o interesse no assunto ministrado não ocorria!). Junte a isso minha falta de respeito com as normas, nunca estudei para as prova; porém, não era brilhante, fui um aluno nota seis (isso quebra a mística de que o mundo acadêmico é mais fácil para nós!). Lhe dá com a mente que não para e quer executar muitas coisas ao mesmo tempo (descobrir as altas habilidades, pois pensava ser hiperativo) e organizar a rotina não é fácil; hoje consigo organizar minha rotina, meus deveres e entender que tenho necessidades específicas e que devo respeitá-las para poder progredir profissionalmente e como pessoa! Altas habilidades não torna nada mais fácil, apenas nós dá noção que temos outras necessidades e maneiras para concretizar os nossos objetivos; caso essas necessidades não sejam respeitadas sua vida desanda! Marcelo Sarges

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  3. '[...]dotação não é de maneira ALGUMA um atestado de superioridade, apenas de diferença [...]', e como dói ser diferente... É triste ter que esconder suas reais habilidades, é entediante 'funcionar' no ritmo das outras pessoas. Minha sobredotação faz com que eu me isole, porque por mais que eu tente é como se não encontrasse 'eco' nas pessoas 'normais.
    Suas postagens são perspicazes, refletem um alto grau de sensibilidade emocional, continue com suas postagens, please.

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  4. Olá!!

    Excelente post!!!!

    Vamos fazer acontecer? Aqui nesse link , que é um documento colaborativo e aberto a contribuições https://docs.google.com/document/d/1AVJJAyHwRhf27DMOhhMjTM4UtUmlRx9YM1N7R5_DMV8/edit

    A hora é agora!

    A procrastinação ganhou férias! ;)



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  5. Bom dia.
    Acabei de descobrir.
    Fiz este soneto:
    "
    Quando só ainda te resta a mente,
    Sem perceber, toma-se o súbito.
    Fazendo da vida, da arte...
    Criação de nosso Espaço Único.

    Habitam lá as mais diversas e,
    Até mesmo as arestas...
    Que ficam para trás...Solidão e Pensamento,
    São intimamente presos no momento.

    Na perfeição da arte,que se veste, se puderes.
    Enquanto ainda tiveres,
    Criatividade veneres.

    Até mesmo sem sentido.
    Encontras, num quarto escuro?
    A resposta que anseias e veneras! Enquanto vivias o absurdo!
    "

    Que os anjos nos protejam e ajudem nossas mentes perturbadas pelo excesso de uso a descansar e alcançar o equilíbrio necessário para que tenhamos qualidade de vida ao logo desta jornada!
    Bom saber que existes, Flávia.
    Por favor continue postando.
    Tobias Lins - 29 anos - Empresário - RJ

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  6. Leonardo,dps vou comentar com mais calma, mas uma coisa q achei mt comédia... Vc mencionou q uma resposta comum é alguém confundir as altas habilidades com a 'superdotação' física... Um dia eu estava checando os seguidores do blog, e me deparei com 'CapitalSexy - Acompanhantes de Brasília', juro q fiquei uns 5 minutos rindo direto hehehe

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  7. Flávia, descobri seu blog a pouco tempo, confesso que estou lavando a alma, passei pelos mesmos dilemas existenciais que o Marcelo, na escola também me sentia culpada por não estudar e tirar as maiores notas, sempre buscava um conhecimento além, não ensinado nas salas de aula, também acreditei durante muitos anos que era hiperativa, pois sempre fui inquieta, muito falante e realizava diversas tarefas ao mesmo tempo.

    Fiz algumas escolhas erradas na minha vida e em virtude deste fato, tive que retomar os meus estudos tardiamente, sou uma das alunas mais velhas na faculdade, mesmo tendo 30 anos e sendo veterana no meu curso. Eu possuo uma grande dificuldade de adaptação ao método de ensino na faculdade, eu compreendo muito bem a matéria, mas discordo muito da forma como este conteúdo é ministrado, mesmo estudando em uma excelente universidade pública do meu Estado.

    Ainda não possuo um diagnóstico de superdotação ou alta habilidade, pois fui criada em uma família pobre, minha mãe não tinha dinheiro, tempo e nem sensibilidade para perceber que a sua filha era diferente. Engraçado lembrar que na infância eu era conhecida como a menina falante e com palavreado "difícil"...rsrs

    Seu blog me despertou, peço que continue com suas postagens, ainda não sei o que sou, mas o mais importante não são rótulos e sim a atenção que tem desprendido a estas pessoas que passam por dilemas parecidos, cujo o mais importante a meu ver é a incompreensão.

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  8. Foi bem difícil...foi já há algum tempo, nos sites de testes de QI. Nada muito expressivo, mas sempre bem acima do esperado.Duas graduações, duas pós, indo para o Mestrado...minha energia não tem fim. Quanto mais combustível eu gero, mas energia eu libero e entro em um círculo vicioso em busca de conhecimento e respostas. Eu adoro pensar sobre tudo que aparece na minha frente, não relaxo. Mas também não me sinto bem se não for assim, não me sinto produtiva ! Sinto que perco tempo na vida se eu resolver "parar". Então, só na exaustão mora o meu prazer...pode isso ??? Rs....Comecei a me identificar com pessoas assim, e sempre me vi diferente. Não participo da "curva normal" estatística das mulheres. Nem penso em me casar e ter filhos, se rolar, rolou...nada de obrigação. Outro detalhe : adoro ter liberdade para estudar o que eu quero sem "podas" intelectuais ...

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  9. Olá Flávia,
    Gostaria de falar algo que aprendi recentemente sobre vergonha. A vergonha surge quando o que somos não é o esperado pelas pessoas ao nosso redor. Quase todos ao nosso redor esperam que nós sejamos "normais", ou seja, que sigamos um determinado padrão. Ao sermos diferentes, sentimos vergonha porque nos encontramos fora desse padrão. Muitas vezes, as pessoas não são gentis ao reprovar o diferente, o que nos deixa mais envergonhados ainda. Nesse caso, cabe a nós mesmos entender e defender aquilo que somos, sem ceder aos olhos condenatórios da multidão. Muitas vezes, quando sentimos vergonha de ser quem somos, acabamos mudando nosso comportamento e calando nossa voz interior para que sejamos mais aceitos. Isso leva, pouco a pouco, a um processo de morte interior. É preciso auto-aceitação e auto-compaixão para superar esse tipo de vergonha. Aceitar e ser gentil consigo mesmo é um longo processo com avanços e retrocessos sem fim, mas é a única forma de realmente se conhecer.
    Recomendo a leitura desse livro: "A Arte da Imperfeição - Abandone a Pessoa Que Você Acha Que Deve Ser e Seja Você Mesmo", de Brené Brown. Às vezes, o livro parece auto-ajuda de prateleira, às vezes não. De qualquer forma, é um bom livro para quem luta contra o perfeccionismo e a vergonha de ser quem é.

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  10. Adorei o teu blog...Tenho um filho diagnosticado (amaldiçoado?!)rsrs...Desde os 6 sabemos das "diferenças"...Mas, acabamos focando por anos nos sintomas (ansiedade, impulsividade)...A pressão vinda por todos os lados para que o "diferente " se encaixe é impressionante...Tortuta psicológica...Até que agente pensa "só um momentinho, o filho é meu, ainda é criança e não tem como se organizar nesse sentido sozinho"...Então, recentemente fizemos mais uma testagem para usar de suporte perante a escola...Sabe, "atestado de diferença"...Ou seja, tem que haver um olhar diferente...Ele nunca vai se encaixar no perfil de aluno "padrãozinho"...Cognitivamente, por enquanto, é excelente...Mas, nas relações interpessoais nem tanto...Amanhã ele completa 12 anos...Um desafio pra mim como mãe...

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  11. Flávia, esse sentimento de vergonha surge porque a maioria das pessoas vê como um "atestado de superioridade" ao invés de um "atestado de diferença"...Precisamos de "facilitadores" nessa caminhada...Encontrei pouquíssimos...Já, "dificultadores" aos montes...

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