sábado, 20 de fevereiro de 2010

Depressão existencial - Dabrowski

Meu segundo post se refere ao trabalho de James T. Webb a respeito do conceito de depressão existencial de Dabrowski, no entanto Webb se refere especificamente como este tipo de depressão possui alta incidência em adultos com altas habilidades. Um pouco pesado, eu sei, mas como hoje eu não estou com muita paciência para desenvolver o assunto aqui (no entanto, vou voltar a isto eventualmente), deixo-lhes com o link do texto: www.hoagiesgifted.org/dabrowskis_theory_existential_depression_feb09.pdf e com uma tabelinha (que também, por falta de paciência não terá o formato de uma tabela) feita em 1974 pela psicóloga May Seagoe (também retirada do texto citado) que fala sobre os pontos positivos característicos das crianças superdotadas (a), e do outro lado os possíveis desafios ou dificuldades resultantes de tais pontos (b).

1(a)- Possibilidade de enxergar potencial; grandes expectativas sobre si mesmo e sobre outros; pensamento crítico. 1(b)- Necessidade de obter sucesso e reconhecimento; intolerância com outros; pode buscar padrões excessivamente altos; a frente de seu tempo.

2(a)- Adquire e retêm informações rapidamente. 2(b)- Impaciente com a lentidão de outros; pode ser visto como "sabe-tudo".

3(a)- Alta capacidade de armazenamento de informação em áreas avançadas; diversidade de interesses e habilidades; multi-talentosos. 3(b)- Problemas para decidir sua carreira; frustração com a falta de tempo; sentir-se diferente dos outros; solidão existencial; pode ser visto por outros como sempre em busca de controle.

4(a)- Intenso e intrinsecamente motivado; altos níveis de energia; persistentes; comportamento orientado por um objetivo. 4(b)- Personalidade "Tipo A"; dificuldade em relaxar; resistência à interrupções; pode negligenciar outros durante períodos de interesse focado; teimosia.

5(a)- Independente e auto-suficiente; criativo e inventivo; gosta de maneiras novas de fazer as coisas. 5(b)- Dificuldade em delegar e em confiar no julgamento de outros; rejeita o que já é sabido, conhecido; atrapalha planos ou hábitos de outros.

6(a)- Procura significado e consistência em sistemas de valores e comportamentos próprios e dos outros. 6(b)- Auto-crítica excessiva; talvez depressivo ou cínico em relação aos outros; algumas vezes 'mandão' ou dominador.

7(a)- Sensível aos outros; deseja relações emocionais intensas. 7(b)- Demasiado sensível à críticas alheias; relações de mentorado intensas que resultam em desapontamento profundo.

8(a)- Foco em causa-efeito; insiste em evidências corroborativas e provas. 8(b)- Dificuldades com aspectos humanos não-lógicos como emoções, tradições ou assuntos relativos à fé.

9(a)- Grande senso de humor, habilidade de rir de si mesmo. 9(b)- Seu humor pode não ser compreendido pelos outros; pode ser focado no absurdismo das situações; o humor pode ser usado para atacar outros ou mantê-los a distância.

Ok, comentários a respeito da tabela (que não é tabela, mas whatever...): Em relação a ter padrões excessivamente altos e não ter paciência com os outros isto realmente pode ser verdade, as vezes as pessoas não querem muito saber o que estão fazendo, querem aquilo pronto sem muita preocupação com conteúdo ou forma. Se for algo realmente interessante eu me dedico profundamente e as vozes das outras pessoas ficam como ruído de fundo, ainda mais se eu percebo que elas não têm a menor idéia do que estão falando. E é fácil esquecer que eu funciono diferentemente dos outros, nem melhor e nem pior, apenas diferente, meu raciocínio não é linear, eu não enxergo um passo depois do outro, muitas vezes eu vejo o final da coisa ou do projeto e busco as lacunas para chegar a este objetivo no menor número de passos possível. Assim sendo, as vezes eu interrompo o raciocínio dos outros e realmente perco a paciência.

Isto não acontece só comigo, tenho amigos que eu considero superdotados, e quando estamos juntos percebo que eles vêem algumas coisas como eu, e a coisa flui mais fácil, e se estamos com alguém 'normal', muitas vezes nos entreolhamos porque sabemos que o raciocínio da pessoa vai trilhar um caminho bem diferente do nosso.

Em relação à capacidade de informação, isto é algo muito pessoal. Os superdotados que eu conheço têm uma capacidade quase infinita de armazenar dados das áreas que lhes interessa. Comigo é a mesma coisa, mas existe algumas situações nas quais eu me lembro de coisas que não são do meu menor interesse, mas que servem algum propósito prático. Ao exemplo de provas e testes. Por que eu prefiro ler os textos à assistir aulas? Porque na maioria das vezes eu consigo lembrar onde está cada parte do texto, cada parágrafo, e consigo transcrever as linhas para a prova. Quase sempre estas informações fogem do meu cérebro após terem cumprido sua função. Eu sei que isto é menos que ideal, já que, teoricamente o objetivo das aulas é aprender. No entanto, este é o método de avaliação ao qual (estupidamente, na minha opnião) o sistema de ensino decidiu nos submeter, portanto, utilizo minhas vantagens como posso para ser bem-sucedida nos critérios deles.

No caso do item de ser direcionado por um objetivo, persistente, tenho um amigo com altas habilidades que ilustra muito bem este caso. Ele sempre soube o que queria fazer profissionalmente, e ele ama o campo que escolheu. Ele é uma pessoa um pouco introverdida, porém quando fala do assunto que gosta, ele vira outra pessoa, ele fica mais feliz, ele sabe do que fala e tem pouca paciência com quem resolve dar palpite sem entender, mas adora quando alguém pergunta algo sobre o assunto. Todas as escolhas que ele faz são direcionadas para este objetivo.

Depois comento mais sobre esta lista senão isto vai virar uma pequena bíblia...

12 comentários:

  1. Oi gostaria de trocar informações com vc. Sou mãe de um menino superdotado, que está com 12 anos e já cursa o ensino médio, tenho algumas dificuldades com ele, acrdito que conhecer vc mais um pouco pode me ajudar compreende-lo. Ele tem muita depressão e crises existenciais. Meu email é valeriabianchin@yahoo.com.br

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  2. Curti muito o texto, mesmo! Me "encontrei" lendo-o! Fico imaginando quanto dessas pessoas aí seriam INTJ como nós...me parece uma possibilidade bastante provável!...rs.
    Abs

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Oi. Foi um grande achado para mim o seu blog. Acho que sou uma AH, mas quem diz isso sou eu mesma. sempre me senti (e fui tratada) diferente, mas nunca entendi porquê. Hoje, sou Pedagoga e acabei por me especializar em AEE. Daí é que cheguei às AH. Estou fazendo uma especialização na área e, quanto mais leio e estudo a respeito, mais me identifico com as características dos Alto Habilidosos (principalmente as que falam do sofrimento e das características psicológicas - sempre achei que tinha a "personalidade forte", por isso era meio "intolerante" com algumas pessoas - que me pareciam burras!)...
    Enfim, acho que estou conseguindo me entender melhor. Sabe, é bom saber que não sou má só porque me irrito com a dificuldade de compreensão das outras pessoas, ou por outra, é bom saber que não são os outros que não entendem, eu que entendo mais rápido ou de outra forma... Bom saber que existem outros como eu! Abraço.

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  5. Oi. Gostei muito de encontrar seu Blog. Trabalho com AEE (sou Pedagoga) e comecei a estudar sobre AH... Porém, quanto mais leio, estudo, me informo sobre o assunto, mais e mais me identifico com as características... Foi muito difícil crescer e ser uma adolescente diferente, principalmente pq eu não entendia essa diferença. Me culpar por ficar irritada com a "burrice" dos outros... ou não entender como as pessoas não entendiam conceitos tão básicos (para mim, claro!) Mas o pior de tudo, foi me sentir como se fosse de "outro mundo" - diferente de todas as pessoas... e querer ser compreendida e nunca ser - me sentir sozinha! Enfim, parece que estou me encontrando e encontrando "os meus". Que bom! Foi ótimo encontrar você! Abraço.

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    1. Lisandra, td bem? O sentimento "Alien" é normal... Mas eu acho é q o resto do mundo é que são os diferentes hehehe O melhor sentimento é vc começar a conversar com alguém ( e Graças a Nietzsche eu já tive essa experiência pessoalmente) e descobrir que está se comunicando com um 'igual'... Deve ser como usar drogas (pq eu claaaro nunca experimentei nada ilegal...), sei q demorei horrores p responder vc aki e nem sei se vc vai chegar a ver isso, mas eu funciono no meu tempo hehehe... E espero q esse espaço a ajude e q a leve a procurar outros tb, Abs!

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  6. Agradeço o artigo, vai esclarecer muitas perguntas, já fui a ler o texto onde dão dicas de como enfrentar este tipo de situação. Obrigado. Alejandro

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  7. Meu filho aprendeu a ler sozinho com 3 anos de idade, se interessava por tudo, até por ópera, coisa nunca ouvida nem estimulada em casa, descobriu a multiplicação contando os quadrados da janela e somando todos me chamvava e dizia: mamãe 3 tres vezes é nove. Na adolescência desinteressou-se um pouco porque queria ser popular, liderava as festas ensaiando teatros e quadrilhas, cantava muito bem inclusive ganhou uma bolsa para ser o vocal do coral da escola, terminou a faculdade com 20 anos e depois disso ficou muito tempo sem sair de casa, se afastou de todos. Hoje melhorou um pouco mas continua sem se interessar por nenhuma profissão, quase não sai e é muito seletivo com relação as pessoas. Fica muito irritado com muita facilidade, em casa só conversa o necessário. Se puder me dar uma informação com relação ao que fazer ficaria imensamente feliz pois não consigo entender como alguém pode ter se transformado tanto.

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    1. Olá 'anônima' de 4 de Novembro, td bem? Gostaria imensamente de te ajudar, mas parece que, ao ler a historia do seu filho, estou lendo minha própria. Aconteceu a msm coisa comigo na adolescência, eu me distanciei da minha própria inteligência pois queria mais amigos, mais festas, mais popularidade, e consegui, continuei com as notas altas, mas mais pela memória fotográfica do q por qq interesse intelectual no q o colégio ensinava (e não q serviria d algo, na minha opinião, pois considero os sistemas educacionais primário e secundário arcaicos, e só a universidade tem alguma validade, mas isso é só minha opinião, como disse). Depois de iniciar a faculdade, me desapontei tb, achei algum valor na educação, mas não era td q imaginava, e encontrei imensa dificuldade em me empenhar para terminar, tanto é q até a metade do curso mantive a média mais alta possível, mas dps desencantei. E agora estou como seu filho, sem sair mt, tem época q saio mais, outras me enclausuro, de tempos em tempos me aproximo mais dos meus amigos, outras épocas me afasto de todos. E em relação às profissões, tenho medo de me comprometer com uma (de todas que tenho vontade, porém, fica só na vontade, e não na ação). E a seletividade quanto às pessoas, aposto q é em relação à paciência q temos q ter... Pois pode parecer, e é o q tds sempre acham msm, arrogância, mas até fazer os outros compreenderem nosso raciocínio, ou nossas conclusões, ou mesmo o assunto do qual estamos tratando, requer uma paciência de Jó, e cansa, cansa muito. A transformação é a evolução normal dele se compreendendo, se analisando em relação aos outros e ao mundo q o cerca. Lembrando que NÃO SOU ESPECIALISTA EM N-A-D-A. Isso é o que acho baseado em minhas próprias experiências, pq pelo o q vc falou, ele deve ter minha idade mais ou menos...
      Em relação a procurar psicólogos e psiquiatras, é bom que vc dê essa opção, mas se ele aceitar, deixe que ele escolha quem ele quer... Pq dar nó na cabeça desses 'especialistas' (principalmente os que menosprezam as altas habilidades), falar o que eles querem ouvir e manipulá-los é NOSSA especialidade... É isso que posso lhe dizer... Não sei se ajudei, espero não ter atrapalhado, e se ele animar dar uma chegada aki e quiser trocar ideia (nem precisa ser comigo, já disse várias vzs, o espaço aki é aberto...), estamos às ordens... Abs e espero q lendo algo aqui ou em outro espaço, vc o compreenda melhor, pois é óbvio q está tentando ajudá-lo.

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  8. ANENIMO (meu nome anônimo, ok?)
    Espera, fui completamente descrito aqui desde minha infância! Só resolvi escrever aqui porque, pela primeira vez, não me senti só. Talvez não no sentido relacionado à solidariedade (desculpe-me o egoísmo), mas me senti como se eu não fosse mais um cara "anormal" por não me sentir nada bem no mundo, apesar da inteligência.
    Frequentemente me pego a pensar sobre o que deu de errado comigo. Poxa, nasci com muitas habilidades que as pessoas dariam tudo para ter. Viam-me com futuro promissor em qualquer coisa que eu escolhesse fazer e pronto, sinto-me um fracassado com vinte e um anos. Não faço a menor ideia do que fazer na vida, vou seguindo meu rumo de forma automática.
    Não raras vezes me canso de absolutamente de tudo na vida. Nada parece me agradar, é um dissabor imenso. É muito melhor dormir ou ficar afundado em literatura do que sentir que estou aqui no mundo real. O que me consola ainda é que amo ciências e espero aprender muito mais sobre a natureza.
    O que também me frustra muito atualmente, e faz com que eu me sinta um verdadeiro fracasso, é que neguei minhas aptidões e minhas vontades de ser cientista e me apeguei à ideia que faziam de mim "inteligente assim passa em direito fácil, vai ser juiz ou promotor". Quem disse que quero ser juiz? Quem disse que me importo com dinheiro? Quem disse que quero trabalhar com a Justiça? Quando digo que a única coisa que ainda resta de significado na minha existência é aprender sobre a natureza, ninguém me entende ("esqueça isso, faça Direito e depois, com o dinheiro, você fará o que gosta"). Assim, me vi em uma faculdade que odeio para agradar expectativas que faziam de mim. Agora, esqueci muitos detalhes das coisas que sabia de ciências, e que me deixavam feliz por sabê-las. Apesar de gostar de aprender, não tenho tanta vontade de fazer outra faculdade pelo enfado mesmo, o apetite da vida passou, isso parece ter sido um grande desperdício minha vida. E aquele garotinho superdotado de antes, agora se tornará um mero burocrata a tentar ganhar a vida, mesmo odiando a vida.
    Não sei se eu resolvesse esse lado profissional/significação da vida mudaria alguma coisa. Quero dizer, e se eu resolvesse dar um 360º em tudo e ser cientista? Não sei se mudaria. Desde muito cedo, por volta dos 6 anos, eu já tinha níveis de crises existenciais absurdos! Como uma criança pode se perguntar para que vale a pena viver? Esses dilemas me atormentam até hoje. Continuo, e vou continuar por mera teimosia, apesar de a minha vida não ter nenhum valor/significado para mim e me ser enfadonho viver.
    Nunca falei sobre isso com ninguém, afinal, ninguém seria capaz de entender. Mas ao ler esse blog pensei "Quantos não devem existir que pensam como eu? Será que trocar experiências nos ajuda a superar isso?".
    PS.: Gostaria de manter contato contigo. Saber como é desse seu lado do mundo que desconheço, mas que me parece familiar. Atenciosamente.

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  9. Boa noite.

    Você tem a sensação de que quanto mais estuda mais seu perímetro social vai se fechando? O mundo torna-se melancólico até achar algo que realmente preencha seu cérebro e ocupe-o por algum tempo antes de cair na espiral depressiativa. Você é taxado de arrogante quando alguém fala algo que para ela é tão complexo e para você e mais simples quanto desembrulhar uma bala ?

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